Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011

Certa vez perdi minha aliança

Certa vez perdi minha aliança. Foi na praia. No mesmo dia em que resolvi que voltaria a surfar. Sou apaixonado por surfe, mas, confesso, nunca tive muita habilidade. Mas naquele dia estava decidido que voltaria a praticar com afinco até ter condições de dizer: “garota, eu vivo a vida sobre as ondas”.

Tudo que consegui naquele primeiro dia, contudo, foi escutar um menino de 10 anos tirar uma com a minha cara. Primeiro, ele se aproximou, caminhando, com a água pela cintura, e enquanto eu remava com todas as minhas forças para vencer as terríveis ondas, fez o favor de informar:

- Tio, aqui já dá pé!

Com ar de derrota, tentei explicar que estava praticando apenas, não importando em que situação ridícula tinha me metido. Então, ele me finalizou como se fosse o Anderson Silva contra o Vitor Belfort:

- E essa bóia, tio, é tua?

Bóia? Ele estava chamando a minha prancha de bóia! Logo a minha melancia (o apelido carinhoso é por causa das cores)!

Antes de colocar em prática meus pensamentos (e afogamento era a coisa mais leve que passava pela minha cabeça), resolvi sair do mar, resignado. Nessa hora, senti um toque no dedo anelar (o “seu vizinho”, manja?) da mão esquerda. Pensei que fosse um peixe pequeno e sacudi a mão. Foi aí que minha aliança ganhou coragem para pedir o divórcio e escorregar os centímetros que a separavam da liberdade infinita, escondendo seu brilho dourado na imensidão escura daquela água cor chocolate. E tal qual um marido traído ainda zonzo pela notícia da escapulida da mulher amada, fiquei cerca de meia hora arrastando os pés pelo oceano.

Não havia mais o que resgatar. Nem minha dignidade.

Um ano e R$ 400 reais depois, na mesma praia, eis que saio para pescar com meu sogro. Não foi fácil, pois não gosto de pescar. Tenho pena dos peixes. Sim, pena! Deles e de todos os outros animais que matamos para comer. Quer saber se como eles ainda assim? Ah, como mesmo. Alguém já fez o trabalho, não? Então não vamos desperdiçar. Hipocrisia? Pode ser. Já tentei, mas não consigo tirar a carne da minha dieta. Sei que alimento essa indústria com os bifes que devoro, mas não mato com minhas próprias mãos. Não faz tanta diferença assim, sei também. Um dia, quem sabe...

Mas o fato é que fui pescar com meu sogro, e ele é quase um profissional, com todos os apetrechos, todos os macetes, todos os atalhos da atividade. Eu, na última vez em que joguei um anzol na água, por pouco não repeti meu pai 30 anos antes, que enfiou o mesmo no polegar logo no primeiro arremesso. Parou no hospital até. Juro.

Aquele dia, porém, o ar estava diferente. O mar estava calmo, quase sem ondas. A água, clarinha como a de um rio conciliador que leva alento e diversão para as cidades que cruza. Os peixes pulavam. As gaivotas aproveitavam. As crianças se aventuravam. As mulheres douravam a pele, despreocupadas. Já os homens, esses se preocupavam com as mulheres.

Larguei tudo na areia, arrumei a isca, joguei a linha o mais longe que consegui e... pimba! Veio o primeiro. Peguei outro marisco, abri, isquei novamente, lancei e... mais um. Repeti e, de novo, tirei outro belo animal da água. Que dia, amigo! Pouco mais de uma hora depois voltávamos para casa com o balde cheio.

Havia tido tanta sorte que resolvi fazer todo o trabalho, da limpeza ao prato final. Comecei com o menor. Tirei as escamas, pedi desculpas – já disse que sinto pena dos coitados? – e abri a barriga. Segui arrancando as tripas, cortando e lavando os filés e reservando em um prato. Segui o mesmo ritual com os demais, e assim foi até chegar a vez do maior de todos. Meu tio Adão, outro pescador de fé, diria que aquele ali era o tataravô dos demais, dado o tamanho avantajado do peixe, coisa rara de se ver tirar da água hoje em dia. Pelo menos nesse tipo de pesca.

Preparei tudo e, ao rasgar o ventre do pobre bicho, não é que escuto o barulho de um metal batendo no alumínio da pia. Na hora pensei que fosse outro anzol, resquício de uma batalha cuja vitória havia sido do peixe. Não era. Era algo circular. Um anel. Era a minha aliança, reconhecida pelos dizeres gravados na parte interna e que foi possível ler após a lavagem com água e sabão. Um ano depois, o mar devolvia o símbolo do meu amor eterno.

E como forma de agradecer, hoje divido essa história para ajudar quem está em situação parecida. Mas vou logo avisando: essa era a história que eu tinha para explicar a volta da aliança sumida. Quem quiser que conte outra. Só não esqueça de jurar no final: "Coração, a culpa não foi minha!".

8 comentários:

Rolando disse...

Olá. Estive por aqui dando uma olhada. Boa estória. E colou. Hehehehehe. Apareça por lá. Abraços.

Anônimo disse...

hahahahahahaha
muito boa essa história!!!!
hehehehehehe
Legal seu blog!!!
@realgabrielreis

Amora ~* disse...

Ahh eu perdi um dia... no metrô.. caiu no colode uma senhorinha. Passou uns dois dias... ela me devolveu (=
hsauhsuhauhas

add ;*

Camilloca disse...

Meu querido vizinho de blog...
Vim ver se tinha atualizado o blog e me deparo com essa história espetacular. rs
Falando aqui com intimidade, sem saber se ainda lembra da amiga aki. rs
Escrevi qq coisa la no meu... To bem frágil esses dias, portanto meus escritos ficam mais ou menos. Mas é a minha maneira de desabafar.
N suma mais.
Bjs.

Hìtzaßêrllé disse...

Uau que história!!
Maravilha de blogger.Tava passeando por aê, e vim fazer uma visita à você. Se quiser visitar o meu acesse:
http://hitzaberllelacouth.blogspot.com/
Te encontro por lá!!
Abraços.

Kellynha disse...

adoooooorei .. voltarei sempre !

Calíope disse...

Wow! Como assim?

Comecei a ler seu texto por acaso e gostei do seu jeitinho de escrever, mas essa história... Parece literária demais pra ser verdade e, ao mesmo tempo, real demais pra ser inventada. Você conta com uma naturalidade típica de quem realmente viveu a experiência. Me surpreendi... Parabéns!

A Noiva Cadáver disse...

História de pescador?
Unhf.
huahuahauahuahaua