sábado, julho 06, 2013

Tio Moa

Há exatamente um mês encontrei o tio Moa. Foi numa tarde triste em que nos vimos para a despedida de minha querida vó Geny. Conversamos por um bom tempo, como de costume.

Homem de papo e sorriso fácil, o tio me contou, entre outras coisas, que havia mandado revelar um filme fotográfico e, quando pegou as fotos, encontrou algumas que tiramos na Redenção, quando a Manu tinha uns dois ou três anos.

Com graça, me falou ainda sobre como sua mãe, aos 90 anos, havia passado um ladrão para trás, trancando-o dentro de casa a despeito da machadinha que o invasor portava. O susto e o medo fizeram com que a família vendesse a casa, que descobri naquele dia ter sido construída com os primeiros salários do tio Moa.

Nas minhas memórias remotas da infância, sempre me lembro daquela casa como um lugar especial, que tinha um cheiro gostoso de amor. O pai do tio Moa era radioamador, e criava codornas, e era fotógrafo, e fazia mil coisas. E no sótão da casa foi onde vi pela primeira vez alguém tocar guitarra. Que lugar estimulante para uma criança!

Certa vez, tio Moa me contou que tinha um presente pra mim. Ao longo dos anos, ele iniciou algumas coleções. Entre elas, a da Realidade, uma das mais importantes revistas de reportagens que esse país já viu surgir. Mas condicionou a entrega a um ato singelo: eu deveria ir até sua casa para um café.

No mês passado, quando nos encontramos, tio Moa me cobrou a visita. Olhei nos olhos dele e prometi que passaria lá assim que entrasse de férias, no dia 13 de julho.

Tio Moa não conseguiu esperar.

Ele nos deixou hoje, de repente, sem nem ao menos nos deixar pensar sobre a possibilidade de não ter mais ele.

Entre as inúmeras coisas que ele fazia com amor, uma delas era a árvore genealógica da família. Ele dizia que, quando eu fosse lá, ficaria surpreso com tudo que ele já tinha conseguido de informação sobre nossos parentes. Começava a me falar de tios que já não lembro, de bisavós que não conheci, e lembrava que, na verdade, não era meu tio, mas meu primo, já que o pai dele era irmão do meu avô, e a mãe, irmã da minha avó, o que fazia dele e de meu pai os verdadeiros primos-irmãos.

Essa conversa, no entanto, eu sempre interrompia. Em minha defesa, dizia que prefiro chamá-lo de tio, pois ele sempre me acolheu tão carinhosamente que só um tio que é quase um pai poderia fazê-lo.

Perguntei para a Manu o que ela se lembrava do tio Moa. A resposta, com a sinceridade de uma criança, descreve o que ele era: ele estava sempre sorrindo.

Sentiremos demais a tua falta, meu tio.

terça-feira, maio 28, 2013

19 anos

Não queria começar um texto com um clichê do tipo “o tempo voa”. Mas não adianta brigar com os fatos. O agora já passou e, se você dormiu no ponto, passou faz horas, dias, semanas...

Olhei para o calendário há pouco. Marca 28 de maio. Amanhã se completam 19 anos desde que meu primo Diego morreu, aos 12. Talvez eu já tenha citado ele por aqui. Éramos como irmãos. Formávamos com o Fábio, meu irmão mais novo, e o Christian, seu irmão mais velho, um quarteto que arrepiava a família quando se encontrava. Aprontávamos tanto que um de nós sempre se machucava, chorava ou tirava (muito) um adulto do sério. Se isso não ocorresse, ou já tinham nos separado antes mesmo de alguma brincadeira começar ou tinham colocado as primas mais velhas para coordenar a bagunça.

Diego, um menino doce e honesto, que venerava o mano mais velho e era apaixonado pela Fernanda, a mana mais nova, era um dos pontos de equilíbrio desse nosso grupo. Se Fábio e Christian eram os mais agitados, ele era o mais centrado, que sabia desde sempre distinguir o certo do errado, a aventura inocente do perigo iminente. Não que ele não se entregasse às traquinagens da idade, pelo contrário. Mas era, de nós quatro, aquele que tinha maior consciência do que estava acontecendo.

Vez ou outra, no entanto, o quarteto se dividia em duplas. Chris e eu, os “grandes”, éramos acusados (~injustamente, juro!~) de implicar com os “pequenos”, que, do nosso ponto de vista, já nem eram tão pequenos assim e deveriam aprender a se defender. Se o Diego precisasse, todavia, o Christian já corria com o auxílio antes mesmo de ser chamado.

***

Mas o tempo voa e lá se vão duas décadas. A correria, a mesma que usamos de desculpa para tantas coisas, nos afasta cronologicamente daqueles momentos inocentes da infância. Vez ou outra, entretanto, um flash mais forte traz junto a lembrança de uma brincadeira, de um campeonato de botão, de um futebol na praia. Fecho os olhos e volto no tempo.

Nesses anos todos, não tive muitos sonhos com meu primo querido. Outra noite, porém, o enxerguei enquanto dormia. Tinha os cabelos pelo ombro. Já era um homem. Teria se dado bem com as mulheres. Fico pensando nas conversas que não tivemos tempo de ter, nos conselhos que ele teria me pedido, na profissão que teria seguido. Tento sentir a paz que ele transmitia com seus sorrisos para afogar a mágoa por não tê-lo mais por perto.

Penso no Chris e na Nanda, no Jorge e na Bia, e busco forças. Faz tempo que não nos falamos. Deixamos sempre para amanhã a ligação da saudade de hoje e de ontem. Sinto falta dos nossos encontros. Quem sabe a gente se reúne para jogar conversa fora e recordar quando o agora era só diversão. Antes que o agora passe de novo.

sexta-feira, julho 20, 2012

Quando as perguntas começam a mudar

Manuela se aproxima, disfarça, e pergunta:

– Pai, quando eu namorar alguém vou ter que trocar meu sobrenome?

Alguns segundos de silêncio depois...

– Não, filha, só se quiser.

– Eu não quero!

Ufa! Pelo menos isso!

sexta-feira, junho 08, 2012

O monopólio das escolas de inglês em Porto Alegre

Hoje à tarde saí com a Manuela pelas ruas do Menino Deus, em Porto Alegre, para apresentá-la aos cursos de inglês da vizinhança. Pretendia esperar um pouco mais antes de colocá-la em uma aula de língua estrangeira, mas resolvi seguir o conselho da mãe de uma colega dela. Afinal, perguntou ela, o que é melhor: deixar nossas crianças sob a influência da televisão (o que fatalmente acaba ocorrendo) ou aproveitar essa fase em que elas são umas esponjinhas para que ganhem conhecimento?

Como moramos em uma região bem abastecida por cursos de diversas bandeiras e didáticas, em poucos metros visitamos três escolas – e ainda optei por não ir a outras duas, do outro lado da rua, para que a Manu não ficasse impaciente e criasse alguma resistência ao ensino do inglês.

No meu tempo de colégio, lembro que existiam diversas opções. Quem tinha melhores condições financeiras, por exemplo, fatalmente estudava no Cultural, no Yázigi ou no Britannia. Eram as marcas da tradição, da qualidade, ainda que com propostas bem distintas. Ensinaram inglês a gerações de porto-alegrenses.

Quem não tinha tantos recursos se virava com escolas menos famosas, mas igualmente qualificadas, que ganhavam alguma fama no boca a boca entre os pais. Lembro de ter passado por duas. Um era o Clep, que ficava na rua do colégio Tubino, no bairro Petrópolis. Isso por volta dos 11 ou 12 anos. Depois estudei em uma escola no Centro, na galeria Chaves, já com 14 ou 15 anos. Não recordo o nome, infelizmente, mas ainda enxergo o rosto do professor, um apaixonado por U2 que nas horas vagas ganhava um dinheiro extra fazendo cover do Bono.

Por fim, aos 21 anos, ingressei no Cultural para estudar de forma séria e contínua, finalizando o curso cerca de quatro ou cinco anos depois. Anos mais tarde, por não conseguir turma no ICBNA, fiz uma “manutenção” no Yázigi para não enferrujar. Não sabia, mas vivia os últimos anos da concorrência entre as duas escolas-referência.

Hoje começamos nossa caminhada pelo Yázigi. Voltei ao local em que estudei pela última vez, na Rua Botafogo. Pareceu um bom lugar, como sempre.

Depois, fomos ao Quatrum. Manu gostou bastante, especialmente da sala de Drama. Dali, passamos na escola que até pouco tempo era Cultural Menino Deus, mas hoje é People ou algo do gênero. Nessa peregrinação, fiquei sabendo que AS TRÊS pertencem hoje ao mesmo grupo, dono também da Wizard – por sinal, uma das escolas do outro lado da rua.

Isso, de certa forma, me incomodou bastante, pois uma das coisas que aprendi é que monopólio não é algo bom e que a concorrência é sempre saudável. E se isso vale para os serviços mais banais do dia a dia, imagina para a educação dos nossos filhos!

Por mais que cada escola tenha dito que possui autonomia e proposta didática diferenciada, é, no mínimo, algo para se refletir cuidadosamente. Afinal, minha esponjinha estará recebendo informações que seguirão com ela para o resto da vida. E nessa etapa em que a crítica deles ainda não está formada, cabe a nós conferir se esse ensino é de fato qualificado ou se estão criando um método de ensino em massa, como quem envia informações pela TV para um telespectador passivo. Espero estar errado. E também espero que a concorrência se fortaleça.

domingo, agosto 21, 2011

Bicicleta, o gol que faltava a Leandro Damião no Inter

Em 2010, por ter participado da cobertura jornalística da Copa Libertadores, fui convidado pelo banco Santander, um dos principais patrocinadores, a escrever um texto que resumisse a competição daquele ano, vencida pelo Inter. Escrevi sobre Leandro Damião, que ainda era apenas uma das opções para o ataque do Inter e que nem o colorado mais fanático imaginava ver um dia como jogador da Seleção.

O material, curto conforme o pedido da assessoria do banco, entraria em um livro de memórias sobre o torneio que seria editado e publicado na Espanha, na língua local. Pelo que consta, a ideia não saiu do papel – ou melhor, nunca foi para o papel. Por isso, publico aqui o texto, que revela um sonho daquele Damião iniciante: fazer um gol de bicicleta. Sonho realizado no jogo deste domingo, dia 21 de agosto de 2011, contra o Flamengo, no Estádio Beira-Rio, pelo Brasileirão. Pouco mais de um ano depois da conquista da América.

***

Libertadores, fábrica de heróis

– Puxa vida, ele chamou o Damião! Não vai dar!

Foi desta forma que um jornalista brasileiro que estava ao meu lado no Estádio Beira-Rio naquela noite de 18 de agosto de 2010 manifestou incredulidade com a substituição que o técnico Celso Roth faria nos minutos seguintes. O Internacional empatava em 1 a 1 com o Chivas Guadalajara no jogo que valia o título da Copa Libertadores. Mais um gol e os visitantes levariam a decisão para as cobranças de pênaltis, com sério risco de a taça mais importante da América do Sul passar para mãos mexicanas, lá do Norte. Algo inédito em 50 anos de disputa.

– Mas o guri tem personalidade! – respondi, com o canto da boca, tentando disfarçar que também não acreditava tanto assim na vitória a partir da entrada daquele garoto destro, fã de Ronaldo, que recém havia completado 21 anos e havia passado a maior parte da temporada fora dos planos, treinando e sonhando com o dia em que marcará um gol de bicicleta pela equipe profissional.

Pois foi com a pressão de um clube centenário nas costas que Leandro Damião ingressou no time. E apenas quatro minutos depois roubou uma bola no próprio campo de defesa, atravessando o gramado a passos largos e determinados, como se cruzasse o continente para salvar dos conquistadores o tesouro sul-americano. Cada metro avançado representava um país de guerreiros que havia lutado bravamente, mas sem sucesso, pelo mesmo objetivo. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Todos já haviam tombado!

Então, por todos eles e, principalmente, pelo Brasil, o garoto invadiu a área e chutou. E naquele momento, com o cronômetro marcando 30 minutos e 45 segundos, o tempo desacelerou. E foi como se um rastro de imagens se projetasse no ar enquanto a bola viajava do pé direito do atacante até estufar os cordéis – 11 países, 38 times, sete meses de disputas, 138 jogos e 329 gols. Além disso, Pelé, o Rei do Futebol, estava presente.

Um grito de êxtase explodiu da boca dos mais de 53 mil torcedores presentes, devolvendo à realidade o garoto de Jardim Alegre, que ainda sonha em fazer um gol de bicicleta, mas que já escreveu parte da história do futebol mundial.

Porque a Libertadores é assim. Quando começa, coloca a América inteira a cuidar uma bola. E forja seus heróis, seus mitos, suas estrelas.

Foi assim em 2010, na 51ª edição, quando apresentou Damião ao mundo.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Certa vez perdi minha aliança

Certa vez perdi minha aliança. Foi na praia. No mesmo dia em que resolvi que voltaria a surfar. Sou apaixonado por surfe, mas, confesso, nunca tive muita habilidade. Mas naquele dia estava decidido que voltaria a praticar com afinco até ter condições de dizer: “garota, eu vivo a vida sobre as ondas”.

Tudo que consegui naquele primeiro dia, contudo, foi escutar um menino de 10 anos tirar uma com a minha cara. Primeiro, ele se aproximou, caminhando, com a água pela cintura, e enquanto eu remava com todas as minhas forças para vencer as terríveis ondas, fez o favor de informar:

- Tio, aqui já dá pé!

Com ar de derrota, tentei explicar que estava praticando apenas, não importando em que situação ridícula tinha me metido. Então, ele me finalizou como se fosse o Anderson Silva contra o Vitor Belfort:

- E essa bóia, tio, é tua?

Bóia? Ele estava chamando a minha prancha de bóia! Logo a minha melancia (o apelido carinhoso é por causa das cores)!

Antes de colocar em prática meus pensamentos (e afogamento era a coisa mais leve que passava pela minha cabeça), resolvi sair do mar, resignado. Nessa hora, senti um toque no dedo anelar (o “seu vizinho”, manja?) da mão esquerda. Pensei que fosse um peixe pequeno e sacudi a mão. Foi aí que minha aliança ganhou coragem para pedir o divórcio e escorregar os centímetros que a separavam da liberdade infinita, escondendo seu brilho dourado na imensidão escura daquela água cor chocolate. E tal qual um marido traído ainda zonzo pela notícia da escapulida da mulher amada, fiquei cerca de meia hora arrastando os pés pelo oceano.

Não havia mais o que resgatar. Nem minha dignidade.

Um ano e R$ 400 reais depois, na mesma praia, eis que saio para pescar com meu sogro. Não foi fácil, pois não gosto de pescar. Tenho pena dos peixes. Sim, pena! Deles e de todos os outros animais que matamos para comer. Quer saber se como eles ainda assim? Ah, como mesmo. Alguém já fez o trabalho, não? Então não vamos desperdiçar. Hipocrisia? Pode ser. Já tentei, mas não consigo tirar a carne da minha dieta. Sei que alimento essa indústria com os bifes que devoro, mas não mato com minhas próprias mãos. Não faz tanta diferença assim, sei também. Um dia, quem sabe...

Mas o fato é que fui pescar com meu sogro, e ele é quase um profissional, com todos os apetrechos, todos os macetes, todos os atalhos da atividade. Eu, na última vez em que joguei um anzol na água, por pouco não repeti meu pai 30 anos antes, que enfiou o mesmo no polegar logo no primeiro arremesso. Parou no hospital até. Juro.

Aquele dia, porém, o ar estava diferente. O mar estava calmo, quase sem ondas. A água, clarinha como a de um rio conciliador que leva alento e diversão para as cidades que cruza. Os peixes pulavam. As gaivotas aproveitavam. As crianças se aventuravam. As mulheres douravam a pele, despreocupadas. Já os homens, esses se preocupavam com as mulheres.

Larguei tudo na areia, arrumei a isca, joguei a linha o mais longe que consegui e... pimba! Veio o primeiro. Peguei outro marisco, abri, isquei novamente, lancei e... mais um. Repeti e, de novo, tirei outro belo animal da água. Que dia, amigo! Pouco mais de uma hora depois voltávamos para casa com o balde cheio.

Havia tido tanta sorte que resolvi fazer todo o trabalho, da limpeza ao prato final. Comecei com o menor. Tirei as escamas, pedi desculpas – já disse que sinto pena dos coitados? – e abri a barriga. Segui arrancando as tripas, cortando e lavando os filés e reservando em um prato. Segui o mesmo ritual com os demais, e assim foi até chegar a vez do maior de todos. Meu tio Adão, outro pescador de fé, diria que aquele ali era o tataravô dos demais, dado o tamanho avantajado do peixe, coisa rara de se ver tirar da água hoje em dia. Pelo menos nesse tipo de pesca.

Preparei tudo e, ao rasgar o ventre do pobre bicho, não é que escuto o barulho de um metal batendo no alumínio da pia. Na hora pensei que fosse outro anzol, resquício de uma batalha cuja vitória havia sido do peixe. Não era. Era algo circular. Um anel. Era a minha aliança, reconhecida pelos dizeres gravados na parte interna e que foi possível ler após a lavagem com água e sabão. Um ano depois, o mar devolvia o símbolo do meu amor eterno.

E como forma de agradecer, hoje divido essa história para ajudar quem está em situação parecida. Mas vou logo avisando: essa era a história que eu tinha para explicar a volta da aliança sumida. Quem quiser que conte outra. Só não esqueça de jurar no final: "Coração, a culpa não foi minha!".

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Alô!

Será que alguém ainda passa por aqui?
Acho que não!
De qualquer forma, amanhã tem texto novo.
Sobre o dia em que recuperei minha aliança perdida no mar.
Uma verdadeira história de pescador!
Só não publico hoje porque fiquei muito tempo em cima do texto.
Preciso sair do texto para revisar ele antes de publicar.
Esse ano vou escrever mais.
Sinto muita falta disso.
Boa noite!