quinta-feira, janeiro 01, 2015

Das lições de 2014

Dois mil e catorze foi um ano de diferentes e estranhas emoções para mim. Comecei me despedindo da segunda graduação, com formatura e tudo, no início de janeiro. Dei uma sorte danada, pois os 40°C costumeiros da época deram lugar a aprazíveis 24°C, o que tornou a tarefa de vestir aquela toga algo muito menos complicado.

Alguns dias depois, foi promovido e assumi a redação do portal Terra em Porto Alegre. Missão que abracei com amor e dedicação.

Em março, enfim nos mudamos, Lisi, Manu e eu, para a casa comprada em agosto do ano anterior. Depois de alguns probleminhas, conseguimos finalizar o grosso da reforma iniciada em dezembro e nosso novo lar se tornou habitável. Com isso, voltávamos a morar em uma casa depois de 10 anos vivendo em apartamento.

Sobre os processos que envolveram essa mudança, lembro que estava de plantão no Réveillon de 2014. Por conta disso, ficamos em nosso apartamento na virada. Só nós três. Já sabíamos que aquele seria um dos nossos últimos momentos naquele lugar que tinha abrigado tantos sonhos que tivemos ao longo de uma década – e algumas angústias também, claro. Por isso mesmo, foi extremamente difícil ver minha filha, então com sete anos, chora muito, sentida como nunca, desejando que a venda do nosso prédio fosse apenas uma brincadeira dos adultos. Ela não queria sair de lá. Não queria ir embora da única casa que conhecia como lar. Com toda sua inocência, ela expressou com o choro um sentimento que era de todos nós.

Antes de sairmos daquele apartamento, escrevi na parede frases como: “aqui fomos muito felizes” e “lar é onde estivermos juntos”. Era um misto de gratidão por tudo que vivemos ali e de esperança por novos dias tão legais quanto os que tivemos até aquele momento. Até agora, somos muito felizes na casa nova, obrigado! E assim continuaremos!

Mas 2014 seguiu avançando a passos largos e não me deu muita chance de olhar para trás. Em junho, tivemos jogos de Copa do Mundo em Porto Alegre. Consegui comprar alguns ingressos na última hora e levei filha e pais para acompanharem algumas partidas no Estádio Beira-Rio. Foi demais!
Então o segundo semestre chegou e, com ele, novas nuvens de mudança. Desta vez, porém, elas vieram com tempestade. No dia 13 de agosto, três dias antes de uma viagem de trabalho a Nova York, recebi minha primeira carta de demissão em 15 anos dentro de redações. É difícil descrever o que se sente nesse momento. Obviamente, jamais gostaria de ter passado por isso. Analisando a recepção de alguns colegas à notícia, entretanto, pude assimilar que uma demissão não é apenas formada por sofrimento e tristeza.

É claro que preocupa, mas naquele dia em que 150 foram “promovidos ao mercado”, senti que muitos estavam aliviados. Foram dois anos, pelo menos, em que tivemos de lidar com a pressão por tarefas que sentíamos vergonha de reconhecer como trabalho nosso. A demissão, naquelas circunstâncias, era o alívio imediato pelo qual tanto clamávamos desde que o jornalismo começou a ser enterrado vivo, ao vivo, com cobertura pelo liveblog. Sobre o capitão dessa barca furada, só uma frase: vada a bordo, cazzo! Pois é, faltou hombridade para encarar a equipe de Porto Alegre. Mas foi até melhor, nos poupou uma cena constrangedora.

Sendo bem sincero, confesso que desde aquele 13 de agosto eu durmo muito bem à noite. E torço demais pelos colegas que seguiram. Espero que o futuro reserve algo bom para eles, lá ou em qualquer outro lugar deste vasto mundo corporativo.

Sem trabalho, resolvi tirar férias. E estudar. Passei três meses devorando os 10 livros da bibliografia que seria cobrada na prova de seleção do mestrado. Feita a prova, larguei os livros para trabalhar com... livros. Passei 10 dias na Feira do Livro de Porto Alegre. Bom demais!

Aí dezembro chegou e os ares mudaram de novo. Já disse que esse é um mês especial pra mim. No dia 17 de dezembro, meu nome apareceu na lista dos aprovados da pós-graduação. Quem me avisou foi a Maurin, querida colega da Letras. Naquele momento, numa reação tardia, parece que compreendi o peso dos últimos meses sobre meus ombros. Foi com muito alívio e choro que comemorei essa vitória. No ano em que me despedi da PUC pela segunda vez, também carimbei os papeis do meu retorno. E assim garanti um 2015 diferente, com todos os ingredientes para ser bom demais, com novos caminhos sendo desbravados e repleto de perspectivas e novos sonhos.

Por tudo isso, obrigado 2014. Mesmo quando parecia que tudo desabaria novas oportunidades surgiram ou foram criadas. Afinal, a vida é dinâmica e não se resume a um crachá e um salário. Tem muita coisa para ser tentada. E se não der certo, é só tentar de novo.









quarta-feira, dezembro 31, 2014

Adeus, ano velho! Feliz 2015!

Acho que já escrevi sobre isso. Sobre os dezembros da minha vida.

Considero dezembro, independentemente desse dia que encerra nossas ilusões e renova nossas expectativas, um mês muito especial. Minhas razões são um tanto pessoais, pois faço aniversário dia 27 e meu pai, dia 29. Mas há algo além. Gosto demais da energia que esse mês carrega e que se acentua a partir do dia 24.

Entendo perfeitamente que nossos sentimentos a respeito de determinadas datas vai depender demais da nossa experiência de vida. Não espero, por isso mesmo, que todos sintam a mesma coisa que eu quando o ano se aproxima do fim. Há, sei bem, quem odeie esse período, e não discordarei de nenhuma razão que possa ser elencada para defender esse ponto de vista.

Ocorre que o meu sentimento sobre dezembro, e sobre o dia 31, foi modelado por dias muito felizes numa infância fantástica na década de 1980. Tenho muito vivas imagens de celebrações de ano-novo que se espichavam pela madrugada e, não raro, invadiam as manhãs do dia 1º na casa dos meus padrinhos, com quase toda a família reunida, alguns amigos, muita música, comida e amor.

Lembro ainda que não nos reuníamos apenas para fazer uma festa e esperar o feriado passar. Em determinado momento, alguém sempre pedia a palavra. Todos se davam as mãos, em círculo, e era feita uma prece. Agradecíamos pelo ano que tivemos, pelas oportunidades que nos foram dadas, e por estarmos ali, mais uma vez, reunidos em torno de uma mesa farta, conquistada com o suor do trabalho de todos. Naquele momento, éramos emoção e alegria, e renovávamos nossas expectativas acerca do ano seguinte.

Então, geralmente era meu avô quem puxava:

“Adeus, ano velho!
Feliz ano-novo!
Que tudo se realize
No ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso
Saúde pra dar e vender”

Desde 1994, contudo, nosso Réveillon não é mais o mesmo. A família se espalhou. Os adultos daquela época parecem ter perdido o poder de mobilização e as crianças daquele tempo cresceram e hoje têm outros interesses, compromissos ou oportunidades que as levam para longe.

Hoje sorrimos para o passado enquanto lamentamos não podermos reprisar ele quando o fim de ano chega de novo. Culpamos a ausência de um ou de outro membro da família por não tolerarmos mais nossos defeitos reunidos por muito tempo. Por vezes, até damos mais poder ao que nos incomoda nas outras pessoas do que ao que nos faz bem.

No Natal desse ano tentei recuperar um pouco daquele espírito. Em determinado momento, pedi a palavra. Não suporto mais essa rotina vazia de comer-trocar presentes-beber-dormir. Faltava algo. Faltava espírito. Faltava agradecimento.

Não sou uma pessoa de fazer discursos em ocasiões como essa e o motivo é simples: não controlo a emoção, choro e não consigo mais falar - por isso, prefiro escrever. Mas nessa noite de 24 de dezembro, ajudado pela meia-luz que escondeu minha vergonha, consegui dizer algumas palavras. E pela iniciativa do Fábio, meu irmão, terminamos aquele momento de reflexão com uma oração.

No domingo, porém, tentei falar de novo e não consegui dizer mais do que cinco palavras. E a luz do sol iluminou minha cara inchada pelo choro de saudade.

Confesso que já fui muito mais nostálgico do que sou hoje. Aprendi a me desapegar do passado para aproveitar o presente. E isso foi fundamental na minha vida. Quando dezembro chega, entretanto, sinto falta de um período em que tudo se resolvia depois daquela cantiga que celebra a renovação.

Tento, assim, tornar o dezembro da minha filha tão especial quanto os da minha infância, ainda que considere que os tempos mudaram tanto que as lembranças dela dificilmente serão grandiosas como as daquele guri dos anos 1980.

Ainda assim, se vocês me permitem, vou diminuir a luz de 2014 para puxar:

“Adeus, ano velho!
Feliz ano-novo!
Que (quase*) tudo se realize
No ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso
Saúde pra dar e vender”

Um excelente 2015 para vocês!

*que fique algo para ser realizado no ano seguinte para ter graça

sábado, julho 06, 2013

Tio Moa

Há exatamente um mês encontrei o tio Moa. Foi numa tarde triste em que nos vimos para a despedida de minha querida vó Geny. Conversamos por um bom tempo, como de costume.

Homem de papo e sorriso fácil, o tio me contou, entre outras coisas, que havia mandado revelar um filme fotográfico e, quando pegou as fotos, encontrou algumas que tiramos na Redenção, quando a Manu tinha uns dois ou três anos.

Com graça, me falou ainda sobre como sua mãe, aos 90 anos, havia passado um ladrão para trás, trancando-o dentro de casa a despeito da machadinha que o invasor portava. O susto e o medo fizeram com que a família vendesse a casa, que descobri naquele dia ter sido construída com os primeiros salários do tio Moa.

Nas minhas memórias remotas da infância, sempre me lembro daquela casa como um lugar especial, que tinha um cheiro gostoso de amor. O pai do tio Moa era radioamador, e criava codornas, e era fotógrafo, e fazia mil coisas. E no sótão da casa foi onde vi pela primeira vez alguém tocar guitarra. Que lugar estimulante para uma criança!

Certa vez, tio Moa me contou que tinha um presente pra mim. Ao longo dos anos, ele iniciou algumas coleções. Entre elas, a da Realidade, uma das mais importantes revistas de reportagens que esse país já viu surgir. Mas condicionou a entrega a um ato singelo: eu deveria ir até sua casa para um café.

No mês passado, quando nos encontramos, tio Moa me cobrou a visita. Olhei nos olhos dele e prometi que passaria lá assim que entrasse de férias, no dia 13 de julho.

Tio Moa não conseguiu esperar.

Ele nos deixou hoje, de repente, sem nem ao menos nos deixar pensar sobre a possibilidade de não ter mais ele.

Entre as inúmeras coisas que ele fazia com amor, uma delas era a árvore genealógica da família. Ele dizia que, quando eu fosse lá, ficaria surpreso com tudo que ele já tinha conseguido de informação sobre nossos parentes. Começava a me falar de tios que já não lembro, de bisavós que não conheci, e lembrava que, na verdade, não era meu tio, mas meu primo, já que o pai dele era irmão do meu avô, e a mãe, irmã da minha avó, o que fazia dele e de meu pai os verdadeiros primos-irmãos.

Essa conversa, no entanto, eu sempre interrompia. Em minha defesa, dizia que prefiro chamá-lo de tio, pois ele sempre me acolheu tão carinhosamente que só um tio que é quase um pai poderia fazê-lo.

Perguntei para a Manu o que ela se lembrava do tio Moa. A resposta, com a sinceridade de uma criança, descreve o que ele era: ele estava sempre sorrindo.

Sentiremos demais a tua falta, meu tio.

terça-feira, maio 28, 2013

19 anos

Não queria começar um texto com um clichê do tipo “o tempo voa”. Mas não adianta brigar com os fatos. O agora já passou e, se você dormiu no ponto, passou faz horas, dias, semanas...

Olhei para o calendário há pouco. Marca 28 de maio. Amanhã se completam 19 anos desde que meu primo Diego morreu, aos 12. Talvez eu já tenha citado ele por aqui. Éramos como irmãos. Formávamos com o Fábio, meu irmão mais novo, e o Christian, seu irmão mais velho, um quarteto que arrepiava a família quando se encontrava. Aprontávamos tanto que um de nós sempre se machucava, chorava ou tirava (muito) um adulto do sério. Se isso não ocorresse, ou já tinham nos separado antes mesmo de alguma brincadeira começar ou tinham colocado as primas mais velhas para coordenar a bagunça.

Diego, um menino doce e honesto, que venerava o mano mais velho e era apaixonado pela Fernanda, a mana mais nova, era um dos pontos de equilíbrio desse nosso grupo. Se Fábio e Christian eram os mais agitados, ele era o mais centrado, que sabia desde sempre distinguir o certo do errado, a aventura inocente do perigo iminente. Não que ele não se entregasse às traquinagens da idade, pelo contrário. Mas era, de nós quatro, aquele que tinha maior consciência do que estava acontecendo.

Vez ou outra, no entanto, o quarteto se dividia em duplas. Chris e eu, os “grandes”, éramos acusados (~injustamente, juro!~) de implicar com os “pequenos”, que, do nosso ponto de vista, já nem eram tão pequenos assim e deveriam aprender a se defender. Se o Diego precisasse, todavia, o Christian já corria com o auxílio antes mesmo de ser chamado.

***

Mas o tempo voa e lá se vão duas décadas. A correria, a mesma que usamos de desculpa para tantas coisas, nos afasta cronologicamente daqueles momentos inocentes da infância. Vez ou outra, entretanto, um flash mais forte traz junto a lembrança de uma brincadeira, de um campeonato de botão, de um futebol na praia. Fecho os olhos e volto no tempo.

Nesses anos todos, não tive muitos sonhos com meu primo querido. Outra noite, porém, o enxerguei enquanto dormia. Tinha os cabelos pelo ombro. Já era um homem. Teria se dado bem com as mulheres. Fico pensando nas conversas que não tivemos tempo de ter, nos conselhos que ele teria me pedido, na profissão que teria seguido. Tento sentir a paz que ele transmitia com seus sorrisos para afogar a mágoa por não tê-lo mais por perto.

Penso no Chris e na Nanda, no Jorge e na Bia, e busco forças. Faz tempo que não nos falamos. Deixamos sempre para amanhã a ligação da saudade de hoje e de ontem. Sinto falta dos nossos encontros. Quem sabe a gente se reúne para jogar conversa fora e recordar quando o agora era só diversão. Antes que o agora passe de novo.

sexta-feira, julho 20, 2012

Quando as perguntas começam a mudar

Manuela se aproxima, disfarça, e pergunta:

– Pai, quando eu namorar alguém vou ter que trocar meu sobrenome?

Alguns segundos de silêncio depois...

– Não, filha, só se quiser.

– Eu não quero!

Ufa! Pelo menos isso!

sexta-feira, junho 08, 2012

O monopólio das escolas de inglês em Porto Alegre

Hoje à tarde saí com a Manuela pelas ruas do Menino Deus, em Porto Alegre, para apresentá-la aos cursos de inglês da vizinhança. Pretendia esperar um pouco mais antes de colocá-la em uma aula de língua estrangeira, mas resolvi seguir o conselho da mãe de uma colega dela. Afinal, perguntou ela, o que é melhor: deixar nossas crianças sob a influência da televisão (o que fatalmente acaba ocorrendo) ou aproveitar essa fase em que elas são umas esponjinhas para que ganhem conhecimento?

Como moramos em uma região bem abastecida por cursos de diversas bandeiras e didáticas, em poucos metros visitamos três escolas – e ainda optei por não ir a outras duas, do outro lado da rua, para que a Manu não ficasse impaciente e criasse alguma resistência ao ensino do inglês.

No meu tempo de colégio, lembro que existiam diversas opções. Quem tinha melhores condições financeiras, por exemplo, fatalmente estudava no Cultural, no Yázigi ou no Britannia. Eram as marcas da tradição, da qualidade, ainda que com propostas bem distintas. Ensinaram inglês a gerações de porto-alegrenses.

Quem não tinha tantos recursos se virava com escolas menos famosas, mas igualmente qualificadas, que ganhavam alguma fama no boca a boca entre os pais. Lembro de ter passado por duas. Um era o Clep, que ficava na rua do colégio Tubino, no bairro Petrópolis. Isso por volta dos 11 ou 12 anos. Depois estudei em uma escola no Centro, na galeria Chaves, já com 14 ou 15 anos. Não recordo o nome, infelizmente, mas ainda enxergo o rosto do professor, um apaixonado por U2 que nas horas vagas ganhava um dinheiro extra fazendo cover do Bono.

Por fim, aos 21 anos, ingressei no Cultural para estudar de forma séria e contínua, finalizando o curso cerca de quatro ou cinco anos depois. Anos mais tarde, por não conseguir turma no ICBNA, fiz uma “manutenção” no Yázigi para não enferrujar. Não sabia, mas vivia os últimos anos da concorrência entre as duas escolas-referência.

Hoje começamos nossa caminhada pelo Yázigi. Voltei ao local em que estudei pela última vez, na Rua Botafogo. Pareceu um bom lugar, como sempre.

Depois, fomos ao Quatrum. Manu gostou bastante, especialmente da sala de Drama. Dali, passamos na escola que até pouco tempo era Cultural Menino Deus, mas hoje é People ou algo do gênero. Nessa peregrinação, fiquei sabendo que AS TRÊS pertencem hoje ao mesmo grupo, dono também da Wizard – por sinal, uma das escolas do outro lado da rua.

Isso, de certa forma, me incomodou bastante, pois uma das coisas que aprendi é que monopólio não é algo bom e que a concorrência é sempre saudável. E se isso vale para os serviços mais banais do dia a dia, imagina para a educação dos nossos filhos!

Por mais que cada escola tenha dito que possui autonomia e proposta didática diferenciada, é, no mínimo, algo para se refletir cuidadosamente. Afinal, minha esponjinha estará recebendo informações que seguirão com ela para o resto da vida. E nessa etapa em que a crítica deles ainda não está formada, cabe a nós conferir se esse ensino é de fato qualificado ou se estão criando um método de ensino em massa, como quem envia informações pela TV para um telespectador passivo. Espero estar errado. E também espero que a concorrência se fortaleça.

domingo, agosto 21, 2011

Bicicleta, o gol que faltava a Leandro Damião no Inter

Em 2010, por ter participado da cobertura jornalística da Copa Libertadores, fui convidado pelo banco Santander, um dos principais patrocinadores, a escrever um texto que resumisse a competição daquele ano, vencida pelo Inter. Escrevi sobre Leandro Damião, que ainda era apenas uma das opções para o ataque do Inter e que nem o colorado mais fanático imaginava ver um dia como jogador da Seleção.

O material, curto conforme o pedido da assessoria do banco, entraria em um livro de memórias sobre o torneio que seria editado e publicado na Espanha, na língua local. Pelo que consta, a ideia não saiu do papel – ou melhor, nunca foi para o papel. Por isso, publico aqui o texto, que revela um sonho daquele Damião iniciante: fazer um gol de bicicleta. Sonho realizado no jogo deste domingo, dia 21 de agosto de 2011, contra o Flamengo, no Estádio Beira-Rio, pelo Brasileirão. Pouco mais de um ano depois da conquista da América.

***

Libertadores, fábrica de heróis

– Puxa vida, ele chamou o Damião! Não vai dar!

Foi desta forma que um jornalista brasileiro que estava ao meu lado no Estádio Beira-Rio naquela noite de 18 de agosto de 2010 manifestou incredulidade com a substituição que o técnico Celso Roth faria nos minutos seguintes. O Internacional empatava em 1 a 1 com o Chivas Guadalajara no jogo que valia o título da Copa Libertadores. Mais um gol e os visitantes levariam a decisão para as cobranças de pênaltis, com sério risco de a taça mais importante da América do Sul passar para mãos mexicanas, lá do Norte. Algo inédito em 50 anos de disputa.

– Mas o guri tem personalidade! – respondi, com o canto da boca, tentando disfarçar que também não acreditava tanto assim na vitória a partir da entrada daquele garoto destro, fã de Ronaldo, que recém havia completado 21 anos e havia passado a maior parte da temporada fora dos planos, treinando e sonhando com o dia em que marcará um gol de bicicleta pela equipe profissional.

Pois foi com a pressão de um clube centenário nas costas que Leandro Damião ingressou no time. E apenas quatro minutos depois roubou uma bola no próprio campo de defesa, atravessando o gramado a passos largos e determinados, como se cruzasse o continente para salvar dos conquistadores o tesouro sul-americano. Cada metro avançado representava um país de guerreiros que havia lutado bravamente, mas sem sucesso, pelo mesmo objetivo. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. Todos já haviam tombado!

Então, por todos eles e, principalmente, pelo Brasil, o garoto invadiu a área e chutou. E naquele momento, com o cronômetro marcando 30 minutos e 45 segundos, o tempo desacelerou. E foi como se um rastro de imagens se projetasse no ar enquanto a bola viajava do pé direito do atacante até estufar os cordéis – 11 países, 38 times, sete meses de disputas, 138 jogos e 329 gols. Além disso, Pelé, o Rei do Futebol, estava presente.

Um grito de êxtase explodiu da boca dos mais de 53 mil torcedores presentes, devolvendo à realidade o garoto de Jardim Alegre, que ainda sonha em fazer um gol de bicicleta, mas que já escreveu parte da história do futebol mundial.

Porque a Libertadores é assim. Quando começa, coloca a América inteira a cuidar uma bola. E forja seus heróis, seus mitos, suas estrelas.

Foi assim em 2010, na 51ª edição, quando apresentou Damião ao mundo.